A Tradição e a Hierarquia dos Vinhos de Bordeaux
Escolher um bom vinho de Bordeaux pode ser uma tarefa desafiadora para os amantes de vinho que desconhecem esta região tão icônica, e foi pensando nisso, que resolvi escrever este artigo para explicar a classificação dos vinhos dessa região e seus Crus Classés, de uma maneira simples e direta.
Talvez Bordeaux seja, juntamente com a Borgonha, a região vinícola mais famosa do mundo, e carrega uma história de tradição que já dura séculos, sem nenhum sinal de enfraquecimento. Seus vinhedos crescem em condições ideais de clima e solo, favorecendo um perfeito desenvolvimento e maturação dos frutos, dando origem à melhor matéria prima para os vinhos ali produzidos.
Os vinhos de Bordeaux estão entre os vinhos mais cobiçados, com seus famosos exemplares encontrando-se em uma posição de destaque mundial, além de gozarem de elevado prestígio, e serem sinônimos de requinte e sofisticação.
O prestígio dos vinhos de Bordeaux vem desde antes do século XVII, quando o número de produtores da região começou a aumentar demasiadamente. Dentro deste contexto, a hierarquização dos vinhos é algo natural quando se tem um número grande de produtores em uma mesma área, ainda mais quando não há mecanismos de controle de qualidade.
E foi exatamente isso que aconteceu com Bordeaux: muitos produtores se aproveitaram do prestígio da região e começaram a vender vinhos elaborados sem muitos cuidados, o que levou muitos proprietários dos Châteaux tradicionais à preocupação. Fruto disso, e motivado também pelo fato de os ingleses (principal mercado dos vinhos franceses da época) darem preferência aos locais em que os vinhos de melhor qualidade eram produzidos, o Imperador Napoleão III ordenou que todas as regiões vinícolas da França estabelecessem uma classificação de seus vinhos para apresentar na Exposição Universal de Paris – evento realizado em 1855, em prol de exibir o melhor do país para o mundo.
Os vinhedos de Bordeaux se localizam nas diversas comunas e vilarejos de suas sub-regiões, e estas, por sua vez, são divididas de acordo com suas localizações geográficas, onde a referência é o estuário do Rio Gironde, dividindo a região em Margem Direita, Margem Esquerda, e Entre Deux-Mers.
O sistema de ranqueamento dos vinhos de Bordeaux foi feito pelos negociantes e foi baseado em resultados comerciais dos vinhos de cada propriedade durante longos períodos de tempo e não na qualidade do vinho apresentado na Exposição Universal. O que contava era a tradição e a reputação construída em torno dos valores obtidos pelos produtos durante anos.
Os vinhos de Bordeaux foram então classificados de acordo com a reputação dos Châteaux e o preço das garrafas, que na época estavam diretamente ligados ao fator da qualidade.
A principal classificação dos vinhos de Bordeaux, e talvez a mais conhecida, é a Classificação de 1855.
Contando apenas com produtores localizados na Margem Esquerda, dos 61 produtores classificados, 60 são da sub-região do Médoc e 1 da sub-região de Graves, divididos em 5 categorias, dentro da seguinte hierarquia:
Classificação de 1855 – Hierarquia dos Crus Classés do Médoc:
– 5 Premiers Grand Cru Classés (4 do Médoc e 1 de Graves): Château Lafite-Rothschild (em Pauillac); Château Latour (Pauillac); Château Mouton-Rothschild (Pauillac); Château Haut-Brion (Graves) e Château Margaux (Margaux)
– 14 Deuxièmes Cru
– 14 Troisièmes Cru
– 10 Quatrièmes Cru
– 18 Cinquièmes Cru
Esta classificação é somente para os vinhos tintos, porém, no mesmo ano (1855), na sub-região de Sauternes & Barsac, foi criada uma classificação para os vinhos brancos doces:
São 26 produtores divididos entre
– Premier Cru Supérieur (apenas o Château Château d’Yquem está nesta posição)
– Premiers Crus (11 Châteaux)
– Deuxièmes Crus (15 Châteaux)
Conheça os vinhos aqui: https://gcc-1855.fr/a-classificacao-dos-grands-crus-1855/
Classificação de Graves:
Criada em 1953, ela contempla somente os produtores da Sub-região de Graves, não passa por revisão, e não possui uma hierarquia.
São 16 produtores que ostentam o título de Cru Classé de Graves e é válida para vinhos brancos e tintos.
Uma curiosidade: em Graves encontra-se o único Château “Premier Cru Classé” que faz parte da Classificação de 1855 que se situa fora do Médoc, o icônico Château Haut-Brion.
Classificação de Saint-Émilion:
Criada em 1954, ela passa por revisões a cada 10 anos e a última foi realizada em 2022. São 85 propriedades, divididas em duas categorias:
– Premier Grand Cru Classé
– Grand Cru Classé
Os Premiers Grand Cru Classés ainda são divididos em Premiers Grands Crus Classés “A” e Premiers Grands Crus Classés “B”. Um detalhe importante: os Premiers Grands Crus Classés “B” não trazem a letra “B” no rótulo, diferente dos classificados como “A”, constando somente a inscrição “Premiers Grands Crus Classé”.
Pela classificação de Saint-Émilion de 2022:
– 2 Premiers Grands Crus Classés A (Château Pavie e Château Figeac)
– 12 Premiers Grands Crus Classés B
– 71 Grands Crus Classés
Confira a lista completa em https://vins-saint-emilion.com/en/welcome-in-the-vineyard/the-2022-classification/
Crus Borgeois:
Criada em 1932, pelo sindicato de produtores do Médoc, o ranqueamento foi feito tendo como base os critérios de produção, valor e qualidade dos vinhos tintos produzidos nas suas 8 sub-regiões (Médoc, Haut-Médoc, Listrac-Médoc, Moulis-en-Médoc, Margaux, Saint Julien, Pauillac e Saint Estèphe). Os vinhos dentro dessa hierarquia podem ser classificados como:
– Cru Bourgeois Exceptionnels
– Cru Bourgeois Supérieur
– Cru Bourgeois
A classificação é revisada a cada 5 anos, mediante degustação às cegas, e você pode conferir a classificação de 2025 (170 propriedades) diretamente no site: https://www.crus-bourgeois.com
Crus Artisans:
Criada em 2006, contempla vinícolas familiares que são menores em produção e cuidam de tudo: desde o plantio, vinificação e venda de seus próprios vinhos.
Relação completa no site https://crus-artisans.com