Tradição, Evolução e Futuro
Bordeaux (Bordéus, em português) é a maior Apelação de Origem Controlada da França, tanto em volume quanto em valor. Seus vinhos tintos tornaram-se referência mundial. Sempre que falamos nos vinhos de Bordeaux, devemos lembrar que se trata de uma mistura de várias uvas. A região também produz excelentes vinhos brancos, tanto secos quanto doces, e há mais de 100 anos produzem espumantes em Bordeaux, embora estes só tenham recebido status oficial de AOC em 1990. Esses são rotulados como Crémant de Bordeaux AOC.
A vasta extensão da região resultou na formação de diversas sub-regiões, denominações, sistemas de classificação e nos icônicos Châteaux – as famosas vinícolas de Bordeaux.
Localizada no sudoeste da França, Bordeaux possui dimensões impressionantes: 100 km de norte a sul e 125 km de leste a oeste, com uma área de vinhedos que alcançava 110.800 hectares em 2019. Para efeito de comparação, essa área é quase quatro vezes maior que a região da Borgonha!
A Evolução das Uvas de Bordeaux
Hoje a Merlot e Cabernet Sauvignon são as principais castas usadas nos vinhos de Bordeaux. No entanto, esse perfil não foi sempre o mesmo, já que as castas cultivadas na região passaram por mudanças ao longo dos séculos. Benjamin Lewin MW, autor de What Price Bordeaux?, cita as principais castas de 1841 como Cabernet, Carménère, Gros e Petit Verdot, Merlot, Malbec e Tarney-Coulant.
Já em 1874, Edouard Féret, coautor de Bordeaux and Its Wines, listava as variedades em ordem de importância: Malbec, Cabernet, Merlot, Verdot e Syrah. A Carménère, que hoje é emblemática no Chile, foi praticamente erradicada da região após as pragas dos vinhedos no século XIX. A Petit Verdot, por sua vez, tinha dificuldades para amadurecer e era pouco produtiva, o que fez com que caísse em desuso – uma situação que vem mudando devido ao aquecimento global.
O grande congelamento de 1956 devastou um quarto dos vinhedos de Bordeaux, reduzindo drasticamente a presença da Malbec – variedade que, mais tarde, se tornaria emblemática na Argentina. Esse evento contribuiu para que a Merlot chagasse ao lugar importância que está hoje. Hoje, a Malbec ainda é cultivada mas em uma porcentagem significativamente menor.
Atualmente, 97% dos vinhedos de Bordeaux são compostos seis castas. A Merlot lidera o plantio com 59% da área, seguida pela Cabernet Sauvignon (20%) e pela Cabernet Franc (8%). Entre as brancas, a Sauvignon Blanc e a Sémillon dividem igualmente 5% da área cada, enquanto a Muscadelle e outras castas representam os 3% restantes.
Margem Esquerda vs. Margem Direita
As castas desempenham papéis diferentes dependendo da localização dos vinhedos em Bordeaux. Esses papéis devem-se à composição dos solos: a Margem Esquerda, com solos de cascalho e areia, que são mais quentes, favorecendo a Cabernet Sauvignon, que tem mais dificuldade para amadurecer. Já a Margem Direita, com solos argilosos e calcários, não apressa a maturação, o que não é um problema para variedades como Merlot e Cabernet Franc, que amadurecem mais rapidamente
Algumas das sub-regiões mais prestigiadas da Margem Esquerda incluem o Médoc, que engloba Pauillac, Saint-Julien, Saint-Estèphe, Margaux e Pessac-Léognan. Essas denominações ganharam fama mundial após a Classificação de 1855, criada a pedido de Napoleão III para a Exposição Universal de Paris. Ainda na Margem Esquerda, Graves tem grande importância histórica, pois foi onde os primeiros vinhedos de Bordeaux foram plantados. Em Graves, 85% da produção é de vinhos tintos, com predominância da Cabernet Sauvignon nos cortes. Também são produzidos vinhos brancos, elaborados principalmente com Sauvignon Blanc e Sémillon. Sauternes, Barsac e Cérons formam a sub-região de Sauternais, são lugares clássicos para vinhos brancos doces, mas não apenas vinhos brancos doces, aqui são produzidos alguns dos mais icônicos e prestigiados vinhos doces do mundo.
Na Margem Direita, as AOCs mais famosas são Pomerol e Saint-Émilion. Ambas produzem apenas vinhos tintos, em sua maioria cortes com predominância de Merlot e Cabernet Franc, com alguma presença de Cabernet Sauvignon quando os solos permitem. Devido à alta concentração de Merlot nas cortes, esses vinhos apresentam textura mais sedosa e menos imponente do que seus correspondentes da Margem Esquerda.
Entre-Deux-Mers
A região de Entre-Deux-Mers (que significa “Entre Duas Marés”) recebeu esse nome por estar situada entre os dois principais rios de Bordeaux, o Garonne e o Dordogne. A maioria dos vinhedos é dedicada à Sauvignon Blanc. Os tintos são feitos com Merlot e ambas as Cabernets, mas são rotulados como Bordeaux AOC, já que a denominação Entre-Deux-Mers AOC produz apenas vinhos brancos.
As Côtes de Bordeaux
Côtes, em francês, significa encostas. Esse termo é usado para designar regiões vinícolas situadas em terrenos inclinados próximos aos rios ou ao estuário, o que influencia diretamente nas características do vinho produzido. Nos tintos, prevalecem os cortes de Merlot e Cabernet Franc. Entre as Côtes, destaco Blaye Côtes de Bordeaux, uma denominação relativamente nova (criada em 2009). Apenas 40% da produção da região é de tintos, baseados na Merlot. O Chapelle Saint-Laup safra 2010 é um vinho desta AOC que tive a oportunidade de degustar e deixo aqui como sugestão para vocês, um vinho maravilhoso, com uma complexidade linda que me surpreendeu positivamente com o seu potencial de envelhecimento. Apresenta excelente relação entre qualidade e preço!
Bordeaux e o Futuro
Bordeaux está sempre olhando para o futuro. Hoje, 60% de sua área vitivinícola já adota práticas sustentáveis e certificações ambientais, reduz o uso de agroquímicos e promove a biodiversidade. Além disso, a região implementou medidas ambientais em 80% das regras de seus AOCs. Bordeaux também foi pioneira ao solicitar ao INAO a aprovação de novas castas mais resistentes às mudanças climáticas. Em 2021, as AOCs Bordeaux e Bordeaux Supérieur aprovaram seis novas variedades — quatro tintas (Arinarnoa, Castets, Marselan e Touriga Nacional) e duas brancas (Alvarinho e Liliorila) — que podem representar até 5% da área plantada e 10% dos blends. Isso demonstra um claro movimento da região para adaptar-se ao aquecimento global e preservar sua tradição vinícola para o futuro.
Uma última palavra
Para os amantes de vinhos, Bordeaux continua sendo uma das maiores fontes de inspiração no mundo do vinho. Espero que este artigo tenha despertado sua curiosidade para explorar mais sobre essa região fascinante. Que tal abrir uma garrafa e experimentar o sabor autêntico de uma terra com tanta história e tradição?
Andreza Santos
Sommelière e Especialista em Vinhos